Fazer o que tem vontade, na hora que quiser. Tomar banho quando quiser. Comer o que quiser. Não ter que escovar os dentes antes de dormir. Não precisar arrumar o quarto ou guardar os brinquedos. Não ter que ir pra escola. Poder comer a sobremesa antes do almoço. Pular no sofá. Jogar bola dentro de casa. Desenhar nas paredes. Ficar acordado até tarde.

Já imaginou como seria um mundo sem regras?

Quando faço essa pergunta para as crianças no consultório, algumas abrem um sorriso largo e dizem “Seria muitooooooo legal!” e complementam “Odeio regras!”. A partir daí, através de perguntas, vou estimulando seu raciocínio até que no final elas concluem por si mesmas que as regras são importantes e que o mundo seria (ainda mais) caótico sem elas.

Geralmente, quando as crianças não gostam de regras é por terem uma percepção de que só servem para não lhes deixar fazer o que gostariam. Talvez por não participarem das decisões e colaborarem para estabelecer os combinados, não se sentem ouvidas e tais regras ficam muito relacionadas a ordens externas e não faz muito sentido para a criança o por quê de terem que cumpri-las.

O fato é que toda casa precisa de regras. Ninguém sobrevive sem elas. Podem ser poucas, simples, mas precisam existir. Mas só estabelecer as regras não é o suficiente, é preciso segui-las e esta é a parte mais difícil.

Por isso separei aqui algumas dicas para te ajudar a estabelecer alguns combinados com seus filhos.

1- As regras precisam ser sentidas como necessárias: Não podemos criar regras aleatórias, como mero exercício de autoridade. As regras servem para melhorar a convivência e evitar conflitos, para que todos aprendam a viver harmoniosamente. Combinados do tipo: “Arrumar a cama ao se levantar”, “Fazer a lição de casa”, “Não gritar”, “Não bater”, “Tirar o prato da mesa”, “Guardar os brinquedos”, precisam ser explicados para a criança a importância de cumpri-los. Fazer por fazer é chato, ninguém gosta, mas quando entendemos que aquela ação faz parte de algo maior, que é importante para o funcionamento da família toda, a criança fica mais motivada a colaborar.

2- Na construção das regras todos devem ser ouvidos: Inclusive as crianças, pois já é comprovado que se a criança participa na elaboração da regra, se sua opinião for levada em consideração, mesmo que ela não concorde com o que foi definido, as chances de cumprir é muito maior. Considerando que a criança está em fase de desenvolvimento e ainda não sabe fazer escolhas maduras e razoáveis, você pode oferecer uma escolha limitada, por exemplo: Fazer ou não o dever de casa não é uma escolha, mas você pode perguntar para a criança se ela prefere fazer a lição de casa assim que chega do colégio ou um pouco mais tarde. Você pode ir argumentando até chegarem num consenso.

3- As regras devem ser justas: Isso significa que ela deve ser seguida por todos. “As refeições devem ser feitas na mesa”, isso vale tanto para as crianças, quanto para os pais. Lembre-se sempre que a criança aprende muito mais através do que ela vê, do que o que ela ouve. Seus exemplos serão os melhores indicadores na educação. Ser justa também significa que ela é adequada para cada idade, respeitando a individualidade de cada membro da família. Filhos com idades diferentes, têm necessidades diferentes e podem contribuir de formas diferentes. Isso deve ser levado em conta. Podem existir as regras da casa e as regras individuais, por exemplo: uma criança de 2 anos ainda não consegue arrumar a cama sozinha, mas uma de 8 anos já pode.

4- As regras devem ser específicas: A criança pensa de uma forma muito concreta e precisa de instruções concretas. A regra “Ter um bom comportamento” não é uma regra específica. É preciso validar com a criança o que isso significa e especificar de forma clara o que você pretende., ou seja, “ter um bom comportamento” pode ser transformado em “não bater no irmão ou nos amigos”, “não gritar” e tudo o mais que você espera que ela faça.

5- As regras devem ser feitas com foco no positivo: É mais eficaz dizer o que você espera que seu filho faça, do que o que você não quer que ele faça, por exemplo: “Guardar os brinquedos na caixa quando terminar a brincadeira” é melhor do que “Não deixar os brinquedos espalhados pela casa”.

Todos os combinados podem ser fixados em um local visível para todos. As regras são importantes na construção de um senso de segurança interno para a criança, por isso precisam ser claras e cumpridas.

Assim como estabelecer as regras, vocês podem combinar quais serão as consequências caso elas sejam quebradas. Converse com o seu filho e decida antecipadamente qual será a consequência caso ele não cumpra determinada regra e, quando isso acontecer, é importante que você siga os acordos prévios.

É claro que toda regra tem uma exceção e isso também deve ser levado em conta, mas é importante que as regras sejam seguidas na maioria das vezes. A manutenção delas também é importante, pode ser que uma regra que vocês estabeleceram hoje, não seja mais efetiva daqui algum tempo e quando isso acontecer, reúna a família de novo estabeleçam novos acordos.

Vamos juntas?

Com carinho, Aline.