A criança fez birra, se comportou mal, mentiu, bateu, não obedeceu. E, para ensiná-la que tais comportamentos não são adequados, muitos pais e professores usam o “Cantinho do Pensamento”. A expectativa desses adultos é que a criança fique sentada em um banquinho, sozinha, pensando na atitude errada que teve! Antigamente era bem pior e usavam recursos como ajoelhar no milho ou ficar de costas no canto da sala com um chapéu de burro na cabeça. Atualmente alguns pais acham que estão sendo mais “bonzinhos” por deixarem a criança no quarto até que ela se acalme.

Mas será que isso funciona mesmo? No texto de hoje quero falar com você sobre alguns mitos e verdades sobre o cantinho do pensamento e porque não sou a favor dele!

O Dr. Daniel Siegel, autor de diversos livros, entre eles “O cérebro da criança”, explica o que acontece quando sentimos raiva, medo, estresse, frustração e outras emoções desagradáveis. Ele diz que ocorre um bloqueio entre as partes emocional e racional do cérebro. Quando somos invadidos por tais sentimentos, nós literalmente perdemos a cabeça e não conseguimos processar as informações direito, pois o acesso à parte pensante fica bloqueado.

Atire a primeira pedra quem nunca disse ou fez alguma coisa quando estava na fúria e depois se arrependeu horrores!! 

Acontece que as crianças ainda não têm a parte racional do cérebro totalmente madura, o que faz com que sejam mais emocionais e tenham mais dificuldade de manter o autocontrole e se acalmar. Sendo assim, o nosso papel enquanto educadores é ajudá-la a desenvolver suas habilidades socioemocionais – autocontrole, pensar antes de agir, resolução de problemas, empatia, dentre outras. Sob a perspectiva da Disciplina Positiva, não queremos apenas que as crianças parem o mau comportamento, queremos que elas tenham um desenvolvimento saudável e se tornem adultos confiantes, capazes, com habilidades de vida e um bom caráter. 

Vamos, então, aos mitos e verdades:

Mito 1: Quando usam o cantinho do pensamento a expectativa dos adultos é que a criança fique ali pensando no que fez de errado para que aprenda a se comportar melhor. O que eles esperam é que a criança pense coisas do tipo “Poxa vida, meu pai tem razão. Eu não deveria ter batido do meu irmão”; “É, realmente minha mãe está certa. Preciso mesmo obedecê-la mais”. Doce ilusão!! 

Verdade 1: A criança está lá pensando em qualquer outra coisa, menos no que fez! Ela pode estar pensando “Ele vai ver só, vou me vingar por ter me deixado aqui”; “Como é que eu faço para não ser pego da próxima vez?!”; “Eu sou mesmo uma criança má e só faço coisa errada”. Além do mais, estamos ensinando que pensar é algo ruim e punitivo!

Mito  2: Deixar a criança no cantinho do pensamento para que ela sofra e sinta falta de estar com o grupo e brincar. Alguns acreditam que isolar a criança é uma excelente maneira de ensiná-la a se comportar melhor.

Verdade 2: Ao menos que a criança esteja viciada em aprovação, ela não se sentirá motivada a melhorar seu comportamento. Ninguém age melhor ao se sentir pior!

Mito 3: Usar o cantinho do pensamento é melhor do que dar umas palmadas. Muitos pensam assim porque só levam em consideração a violência e dor física.

Verdade 3: A dor e o sofrimento emocional causado pela humilhação e vergonha que a criança sente, podem ser muito mais prejudiciais para o seu desenvolvimento saudável e senso de autovalor.

Mito 4: A criança tem que ficar no cantinho por 1 minuto para cada ano de vida.

Verdade 4: Não existe nenhum estudo sobre esse tempo e, muito provavelmente, foi criado apenas para que essa punição causasse somente o sofrimento necessário para a criança aprender a lição.

Mito 5: Mandar a criança para o cantinho para que ela possa se acalmar. Esse é um grande mito porque o que acontece geralmente é que mandamos a criança pra lá quando nós, adultos, estamos irritados e sem saber o que fazer e, ao invés de assumirmos que não sabemos como lidar com o mau comportamento, culpamos a criança por agir assim.

Verdade 5: A criança frequentemente resiste a esse comando e o que acaba acontecendo é uma grande disputa de poder, o que intensifica ainda mais o sentimento de raiva.

Na Disciplina Positiva e à partir dos recentes estudos sobre como o cérebro funciona, nós acreditamos sim que precisamos de um tempo para se acalmar e resgatar a parte pensante do cérebro, por isso usamos a Pausa Positiva.

Se o seu objetivo é ajudar seu filho a se acalmar para que ele possa agir melhor, como você imagina que seja essa pausa positiva? 

Esse “cantinho da pausa positiva” pode ser uma espaço acolhedor e aconchegante, com objetos e materiais que ajudem a criança a expressar seus sentimentos e se sentir melhor. Pode ter massinha de modelar, plástico bolha, lápis e papel, livros, música, almofadas, ursinhos… enfim, é um espaço construído junto com a criança, num momento de tranquilidade e que todo mundo pode ir para se sentir melhor.

Quando os adultos modelam comportamento de autocontrole, pedem um tempo para se acalmar antes de continuar com a situação estressora e conseguem lidar com suas próprias emoções, as crianças aprendem a fazer o mesmo.

Jane Nelsen, precursora da Disciplina Positiva disse: “Queremos que as crianças controlem seus sentimentos quando na verdade nem os adultos conseguem fazer isso”.

Sejamos a mudança que queremos ver em nossas famílias!

Com carinho, Aline Cestaroli

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